Missão integral e prática social da igreja

Autor: Joanildo Burity

“…e lhe deram o livro do profeta Isaías. Ele abriu o livro e encontrou o lugar onde está escrito assim: ‘O Senhor me deu o seu Espírito. Ele me escolheu para levar boas notícias aos pobres e me enviou para anunciar a liberdade aos presos, e dar vista aos cegos, libertar os que estão sendo oprimidos e aunciar que chegou o tempo em que o Senhor salvará  o seu povo’. Jesus fechou o livro … e disse: ‘Hoje se cumpriu o trecho das Escrituras Sagradas que vocês acabam de ouvir’” (Lc 4.17-21)
“Jesus andava visitando todas as cidades e povoados. Ele ensinava nas sinagogas, anunciava a boa notícia sobre o Reino e curava todo tipo de enfermidades e doenças graves das pessoas” (Mt 9.35)
“Agora eu sei que, de fato, Deus trata a todos de modo igual, pois ele aceita todos os que o temem e fazem o que é direito, seja qual for a sua raça. Vocês conhecem a mensagem que Deus mandou ao povo de Israel, anunciando a boa notícia de paz por meio de Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. (…) [Vocês]sabem também como Deus derramou o Espírito Santo sobre Jesus de Nazaré e lhe deu poder. Jesus andou por toda parte fazendo o bem e curando todos os que eram dominados pelo Diabo, porque Deus estava com ele” (At 10.34-36, 38).


Os textos acima resumem, de três maneiras o conteúdo do ministério de Jesus. Em todos três, a concepção de missão que anima a prática de Jesus é abrangente e inclui simultaneamente, sem hierarquias e sem contradição, uma dimensão espiritual e outra histórica e corporal; um componente de anúncio, outro de ensino, outro de ação libertadora (das doenças, da privação de liberdade, dos efeitos da pobreza). Anunciar boas novas, mas fazer o bem, sem dicotomias, sem prioridades. Evangelização num sentido abrangente. Missão integral? Sim. Mas que sentido fazem os cristãos evangélicos brasileiros dessa missão abrangente de Jesus?


Embora pareça um absurdo, está longe de ser ponto pacífico que a Igreja possua uma missão integral e menos pacífico ainda que parte desta missão tenha a ver com uma prática social. E isto é especialmente o caso entre os evangélicos brasileiros, que não somente pela sua orientação predominante (pentecostal) como também por sua origem missionária (setores mais conservadores do protestantismo norte-americano), tenderam e tendem a afirmar uma compreensão da missão da Igreja em que uma concepção restrita de evangelização (entendida como proclamação com vistas a converter pessoas para as igrejas evangélicas) predomina sobre qualquer outro entendimento da missão.


Há muito esquecida do caráter provocador da prática de Jesus – na tradição de seus antepassados os profetas – de procurar pessoas rejeitadas, ignoradas ou discriminadas pela sociedade de seu tempo; de romper com práticas intocáveis, como a abstenção de realizar qualquer trabalho (ou boa obra) no sábado; de tratar como superiores a si os seus próprios discípulos e tornar essa atitude um símbolo da própria atitude devida por quem detem autoridade; de fazer o bem como forma de evangelizar – curando, alimentando, acolhendo pessoas suspeitas ou tidas como indignas diante da sociedade – há muito esquecida disso, essa maioria da igreja evangélica acha que está sendo fiel em priorizar com exclusividade inquestionável a assim chamada pregação ou evangelização.


Esquecida de tudo o que pareça uma afirmação de outra forma de humanidade ou vida em comunidade alternativa aos valores e práticas dominantes no mundo ao seu redor, essa igreja quer viver exclusivamente em torno de uma prática religiosa. Quer que Deus seja e aja como Deus da igreja, na igreja e para a igreja. Deus das quatro paredes. O modo de vida dos membros dessa comunidade religiosa não se pretende alternativo ao de seu tempo e seu mundo, senão no sentido de chamar o mundo para dentro da igreja, transformá-la numa super-associação, germe de uma sociedade que no limite e na melhor das hipóteses seria uma super-igreja, uma enorme programação semanal de atividades eclesiásticas – cultos, cânticos, orações, reuniões de estudos, “sociais”, etc.


Nossa maioria também vive esquecida de que nos primórdios da fé cristã o embate primeiro, o mais decisivo, que selou o destino do cristianismo, foi entre um grupo de “conservadores” (que pretendia manter-se dentro dos parâmetros da lei e da cultura judaicas) e um grupo de “liberais” (que reinterpretou radicalmente o sentido do evangelho como dirigido a toda e qualquer pessoa, de toda e qualquer raça, de qualquer dos sexos, em toda e qualquer condição social), e que não fossem os “liberais”, nós não estaríamos aqui hoje. Deste embate dependeu o destino de toda a pregação de Jesus. E tivesse prevalecido a visão dos conservadores, dos judaizantes, do partido da Lei, o cristianismo teria desaparecido melancolicamente, em meio a tantas outras seitas judaicas do primeiro século de nossa era. Em torno dessa iniciativa dos que, apesar de judeus, decidiram ir contra o entendimento teológico do judaísmo (e dos cristãos judeus) de seu tempo, destinando a mensagem de Cristo ao mundo do lado de fora de Israel, jogou-se o destino da fé cristã.


Não é outro o sentido do veemente discursos paulinos na carta aos Gálatas, de seu criterioso detalhamento da relação entre Israel, a Lei, a igreja e o evangelho na carta aos Romanos, da pregação de Pedro após o episódio da conversão de Cornélio. Nestes textos fica claro que apegar-se ao antigo como se fosse o imutável, agarrar-se à letra da tradição recebida (a “letra da lei”, como chamou Paulo, ou a “letra da Bíblia”, como precisaríamos dizer hoje), não é ser fiel, é ser míope, é ser covarde, é não ter imaginação. Os inovadores, os que se abriram ao mundo, rompendo as barreiras teológicas, sociais e culturais, a pretensão elitista de serem os escolhidos intocáveis de Deus, que não poderiam se misturar, puros de sangue, esses inovadores, esses liberais, é que escreveram as primeiras páginas da consolidação da proposta de Jesus como proposta para o mundo todo e não só para o povo de Israel.


Falar de missão integral da Igreja também não é ponto pacífico porque há outros na igreja evangélica que até aceitam que faça parte dessa missão o serviço (diakonia), a comunhão (koinonia), o ensino (didakhe) e o testemunho (martiria), ao lado da proclamação (kerigma), mas subordinam tudo a esta última. E se for preciso optar, estarão sempre prontos a sacrificar os demais em nome da pregação. Assim, temos um número de líderes – clérigos e leigos – nas igrejas brasileiras que chegam a usar a expressão “missão integral” quando isso lhes convem. Quando parecem mais modernos e arejados do que os fundamentalistas. Quando são abordados ou cortejados por gente importante, na religião ou na política. Quando são entrevistados na mídia, ou quando estão falando para uma platéia de cristãos que não são os de sua igreja local, congregação ou paróquia. Nessas ocasiões permitem-se falar de missão integral, de serviço ao mundo, da falsa oposição entre evangelização e ação social, etc. Mas estas pessoas se calam, se omitem ou censuram e até reprimem as expressões de pastoral em que a proclamação não é vista como a definição mais importante ou superior da missão da igreja. Ou seu discurso é da boca para fora, sem consequências no dia-a-dia da igreja de que participam, ou não querem ferir sensibilidades dos membros mais conservadores de sua igreja – embora apoiem os poucos que se envolvem – ou ainda vivem uma vida dupla, em que seu engajamento social não tem relação alguma com sua vida eclesial, seu compromisso de fé.


É preciso, então, por em questão as duas posições: a dos que resistem à compreensão da missão integral da igreja por estreiteza teológica e a dos que honram esta compreensão só de lábios, mas não se comprometem (ou se comprometem, sem ligar isso com sua fé). E dizer que creio firmemente que sempre quando a igreja se vê na circunstância de optar entre a pregação do evangelho e a demonstração dos efeitos e consequências deste na melhoria da vida (a vida em abundância que Jesus disse ter vindo trazer), ela está prestes a trair seu compromisso com o Mestre. Está em sério risco de fraudar sua missão.


A idéia de integralidade da missão tem uma história recente no que se refere à expressão que estamos usando, e uma longa trajetória de fé e compromisso no que se refere ao entendimento do chamado de Deus ao seu povo, desde os tempos dos profetas de Israel. Não é possível retomar nenhuma delas, sob pena de não haver tempo nem espaço para tratarmos do nosso tema com maior detalhe e atenção. Chamo apenas a atenção para a importância do vínculo entre evangelização e ação social que está no cerne da compreensão evangelical da missão da igreja como integral[2]. E como alguém ligado à ala mais radical do movimento evangelical, eu diria que a compreensão desse vínculo constitui o teste da fidelidade à missio Dei no nosso tempo: uma igreja que opõe sua pregação a seu compromisso com a vida em abundância no seu tempo e lugar pode estar crescendo em número ou em riqueza, em publicidade ou em poder, em capacidade operacional ou em estrutura, mas não está sendo fiel ao chamado de Deus, a sua vocação.


Para o entendimento da missão integral, chamo a atenção para um elemento que dá o tom da abrangência dessa missão: a continuidade da igreja com a missão abraâmica de ser porta-voz dos desígnios de Deus e uma benção para todos os povos da terra. Se compararmos textos como Gn 12.1-3[3]; At 3.25-26[4]; Gl 3.7-10[5] podemos perceber uma continuidade não com o culto de Israel, nem com a etnia judaica, nem com as expectativas teocráticas do Reino de Davi, mas entre a promessa a Abraão e a promessa à Igreja (cf tb. Rm 2.17-29; 9.30-31; 11.15-21; Ef 1.3-6, 9-10; 2.14-19; Tt 2.11-14; I Pe 2.4-10; Gl 3.26-29).


O tema da benção a Abraão, ainda no Antigo Testamento, na comunidade exílica, passou a ser interpretado como algo dirigido a todos os povos, não mais privilégio de Israel (cf. Is 51.1-8). Por outro lado, tanto no Antigo como no Novo Testamentos, o tema da benção está associado a uma vida sem aflições, sem incertezas quanto à provisão do sustento, a uma vida em liberdade e em comunidade, a valores de paz e justiça, de longos dias sobre a terra dada por Deus (cp. Dt 11.8-21; 28.1-14, Is 56.1-9; 65.16-25; Mt 5.3-11; Lc 6.20-23). A pregação de Jesus atestou isso, ao repetidas vezes, desde seu sermão inaugural, na sinagoga de Cafarnaum, reafirmar a vinculação inseparável entre as boas-novas da salvação e a provisão do bem-estar aos destinatários do Reino de Deus (Lc 4.16-21; Mt 25.31ss; Lc 10.29ss).


É certo que apesar dos elementos que podemos encontrar na mensagem dos profetas, encontramos neles ainda uma prioridade dada a Israel, uma expectativa de desforra, de uma benção aos povos que viria por meio da dominação de Israel sobre estes últimos. Daí por que é importante perceber a “depuração” deste sentimento que a mensagem de Jesus e do cristianismo produz, ao desvincular o povo de Deus de qualquer referência nacional ou racial, ao incorporar toda e qualquer pessoa ou povo que tiver fé em Cristo.


Agora, a igreja é uma comunidade de dons. Este é um sólido ensino paulino. Nela Deus opera diferentemente em cada um, de acordo com suas habilidades e com a vocação recebida. Não se espera que cada cristão faça tudo, nem todo o tempo. Isso nada tem a ver com fazer opções ou dicotomias entre a pregação, o ensino, a comunhão, o serviço, o testemunho. A missão é da igreja toda, não de indivíduos que somados vêm a ser chamados de igreja. E sendo missão da igreja toda, não cabe a ninguém exaltar um aspecto e negar outros, nem tampouco se exige de ninguém que se envolva em todas as facetas da missão. Que na igreja uns façam certas coisas, enquanto outros fazem outras, isso tem a ver com a imagem do corpo e seus diferentes membros. Os dons do Espírito Santo servem, segundo Paulo, “para preparar o povo de Deus para o serviço cristão, a fim de construir o corpo de Cristo” (Ef 4.12), “para o bem de todos” (I Co 12.7). Assim, na diversidade dos dons, na pluralidade de ênfases, é a igreja toda que exerce a missão integral. Mais, como acabei de dizer, segundo a lógica da diversidade do corpo, não há lugar para menosprezo de uma dimensão por outra (cf. I Co 12.12-30; Rm 12.4-8).


A igreja tem uma missão, o que significa que não existe para si. Ela faz sentido em função de sua fidelidade a Cristo, de sua capacidade de ser sinal do Reino de Deus. Reino de um Deus que é maior do que a Igreja. Reino que se espalha para muito além dos limites da igreja. Reino que foi o objeto maior da pregação de Jesus. A igreja, por sua vez, é testemunha do Reino, semente de um projeto de Deus para o mundo que um dia engolirá a própria igreja, tornando-a desnecessária. Paulo diz que Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo e nos confiou o ministério da reconciliação (II Co 5.18-19). E quando o Reino for consumado, lemos no final do Apocalipse, já não haverá mais igreja, nem templo, mas a humanidade redimida dos que aceitaram reconciliar-se com Deus, por meio da ação missionária da igreja, que é integral e não somente proclamativa.


Muito bem. Até aqui pudemos estabelecer que a missão integral vai na contramão dos que entendem a missão da Igreja como essencialmente proclamadora – considerando tudo o mais acessório ou instrumental (isca para fisgar gente) e achando um desvio dar atenção direta a qualquer outra coisa. Vai também na contramão dos que mesmo aceitando a importância das outras dimensões, ou as consideram subordinadas à proclamação, ou não se comprometem com elas. Dissemos que a missão integral atribui à Igreja a continuidade da missão de Abraão de gerar um povo que seria benção para todos os povos da terra, que esta benção refere-se a vida em abundância, que se exerce numa diversidade de dimensões (proclamação, ensino, comunhão, serviço, testemunho), mas não hierarquiza ou prioriza umas em detrimento das outras.


Acontece que se há uma dimensão da missão da igreja que a maioria da igreja evangélica tem especial dificuldade em admitir e mais ainda em cumprir é a do serviço. Seja porque, como cristãos modernos e protestantes, perdemos quase inteiramente a perspectiva de um entendimento comunitário da fé, enfatizando exageradamente a posição do indivíduo “solto” no mundo, tomando decisões por si só, sem reconhecer qualquer débito ou dependência dos contextos em que se insere e no interior dos quais vive sua vida. Seja porque, como herdeiros de uma mensagem cristã desencarnada, estes cristãos evangélicos tornaram-se socialmente insensíveis às necessidades humanas na medida em que sua mensagem cindiu o ser humano em corpo e espírito e dirigiu seu foco a este último, despreocupada com as carências, as angústias, os desejos, a sensibilidade que no ser humano se expressam no e pelo corpo – na fome, na doença, no choro, no sofrimento, nos traumas psicológicos, nos olhos e mãos que pedem, no prazer do encontro, do abraço, no prazer do sexo, no uso do corpo para fazer arte, teatro, dança, liturgia, música. Seja porque uma não desprezível tradição na história da igreja confundiu a tensão com o mundo, introduzida pela presença do evangelho, com a rejeição a tudo o que é histórico, social, coletivo, construindo uma imagem da igreja como “sociedade separada” que é a mãe do sectarismo e do espiritualismo.


Servir, num contexto em que alguma ou várias dessas hipóteses ocorram, é quando muito pensado como algo para dentro. Ignora-se o dito paulino de que devemos procurar “fazer o bem uns aos outros e também aos que não são irmãos na fé” (I Ts 5.15), ou interpreta-se tendenciosamente o outra admoestação a que “sempre que pudermos, devemos fazer o bem a todos, especialmente aos que fazem parte da nossa família na fé” (Gl 6.10). Tudo fazer para que os de dentro tenham o mínimo necessário para não se tornarem uma contra-mensagem sobre o poder transformador do evangelho. Bem-estar para os nossos, e uma certa sinalização para quem está fora de que aqui dentro podem ter esperanças. Servir aqui é às vezes uma tática evangelística, uma forma de atrair as pessoas para a igreja.


E quando chegamos àquele nível de sensibilidade em que se diz que é preciso “fazer alguma coisa pelos pobres”, trata-se de um tipo de ação fadada a jamais produzir qualquer efeito de mudança real na vida das pessoas que são alvo desta ação caritativa. Ações emergenciais, individualizadas. Distribuição de cestas básicas, roupas, remédios, realização de “baratilhos” com itens usados a preços simbólicos, são opções corriqueiras. Já estamos diante de níveis avançados de sensibilidade social quando a igreja monta uma escolinha, uma creche ou um consultório médico-dentário e os disponibiliza à população pobre ao seu redor.


Naturalmente, não há o que questionar na realização destas ações em si mesmas. Afinal, a urgência é tamanha, a carência tão gritante, neste país campeão de desigualdades sociais, que não se pode deixar de acolher toda e qualquer contribuição nesse sentido – venha de onde vier. As pessoas estão famintas, doentes, abandonadas, desesperadas. Não faz sentido simplesmente orar por elas e pedir-lhes paciência. Isso é crueldade, insensibilidade. Mas a questão que quero atacar é outra: é a do tipo de vinculação que as igrejas que assim fazem mantêm entre este serviço e as motivações bíblicas e teológicas de sua atuação. Que entendimento da fé a anima e que lugar reserva neste entendimento para a ação social?


A dificuldade em integrar o conjunto das atividades promovidas ou realizadas em torno da igreja como instituição religiosa com as necessidades e desafios postos pela sociedade na qual esta igreja existe e atua, é um elemento forte de nossa herança majoritária.


Desta dificuldade faz parte, não poderia deixar de dizer, uma notável ignorância ou desprezo da rica e plural tradição e experiência de atuação social da igreja cristã, ao longo de sua história, bem como de pensamento social de inspiração cristã – produzido oficialmente pela igreja ou por cristãos comprometidos com ela. Nesta ignorância ou desprezo, muitas ações que se propõem no presente ora repetem os problemas ou as respostas do passado, ora se apoiam em valores e propostas ideológicas do presente que são contrárias ao evangelho. Para tais ações, um conhecimento elementar da herança teológica e histórica do cristianismo poderiam guiar e respaldar novas alternativas de modo muito mais consistente. E nem precisaríamos brincar de historiadores. Mesmo hoje, ao redor do mundo ou no Brasil, há belos exemplos de serviço cristão que não apenas minora as necessidades urgentes, mas também ajuda a libertar as pessoas, desenvolver sua auto-estima, organizá-las (inclusive as evangélicas) coletivamente, mobilizá-las, capacitá-las para o exercício crítico de sua cidadania, para a transformação das políticas de governo ou das estruturas sociais.


Mas há um segundo aspecto da questão que não se refere ao servir, mas ao relacionar-se. Pois falar de uma prática social da Igreja exige que nos perguntemos pela posição assumida pela igreja em relação às questões sociais de nosso tempo. Não apenas em termos de qual a posição por ela assumida diante de opções conceituais ou morais, mas também perguntando-se ao lado de que grupos sociais a igreja tem se posicionado em meio às divisões sociais que marcam a sociedade.


Aqui há questões históricas a registrar: (a) a história da conscientização e pronunciamento social da igreja passando tanto por crises históricas ou conjunturais que colocaram desafios à auto-compreensão da fé cristã, como pelo esforço de minorias ativas no interior das igrejas, empurrando-as para uma tomada de posição; (b) as diferenças entre o catolicismo, o protestantismo liberal ou ecumênico, o fundamentalismo e o conservadorismo evangélicos, a corrente evangelical mais recente, no que se refere ao modo e ao conteúdo destas tomadas de posição sobre questões sociais; (c) a referência oficial (pronunciamentos da igreja como instituição) em tensão com as iniciativas de movimentos para-eclesiásticos e com a inserção individual de cristãos em movimentos e organizações seculares atuantes na área social.


Não  é possível ocultar a tendência que os cristãos, católicos, ortodoxos e protestantes, têm tido de assumir posição de defesa da ordem vigente e das forças sociais dominantes, em nome de um dever de obediência às autoridades, mesmo quando se trata de regimes opressores, violentos, intolerantes, multiplicadores da exclusão e da miséria. Não foram muitas as vezes em que prevaleceu a tendência a tomar partido dos pobres, dos setores marginalizados ou discriminados da sociedade, em nome de um entendimento da epifania de Jesus nestes pequeninos, à luz do sermão escatológico de Mt 25 e da parábola do bom samaritano. É certo que sempre houve os que procuram isentar-se de tomar posição, alegando um suposto “equilíbrio” entre as partes, pesando os prós e os contras, os lados positivos e negativos de cada situação ou proposta. Esta neutralidade tem historicamente servido a ninguém menos que aos poderosos e privilegiados.


Assim, a prática social da igreja existiu sempre e continuará existindo, independentemente de haver consciência disso ou não. E esta prática embora seja um indicador da concepção de missão que a igreja tem num determinado tempo e lugar, nem sempre se vincula ao entendimento integral da missão. A prática existe porque a igreja é sempre comunidade inserida numa história. Por espiritual que pretenda ser em sua natureza, não consegue minimamente escapar a sua situação, a seu lugar no tempo e no espaço. Ao posicionar-se sobre temas sociais, e ao lado de quem o faça, ou mesmo ao omitir-se de dizer palavra, e ao lado de quem assim o faça, a igreja tem uma prática social. Esta pode e deve ser julgada à luz da sua própria tradição – bíblica, teológica e histórica – e dos efeitos concretos que tal prática gera na história e na sociedade.


A situação da igreja evangélica no Brasil nos últimos anos combina avanços, ambiguidades e desenvolvimentos questionáveis na área da ação social. Nem tudo guarda relação com o movimento da missão integral da igreja, ou evangelicalismo. Este entendimento, como o das idéias ecumênicas, é minoritário no protestantismo brasileiro e apesar da visibilidade de algumas lideranças em âmbito nacional, não se acha difundido nas igrejas. Nos anos 90, deu-se uma abertura para a contribuição social das igrejas – já não somente da Igreja Católica, mas também das igrejas evangélicas – que encontrou-as ainda em meio ao debate sobre a legitimidade ou não de combinar evangelização com ação social. No entanto, na prática, multiplicaram-se os casos em que, não somente indivíduos, pequenos grupos, organismos para-eclesiásticos e certas estruturas denominacionais especializadas na pastoral social, mas também igrejas e paróquias locais começaram a mostrar ou a buscar suas credenciais como promotoras de projetos e ações de cunho social.


A reabilitação da presença das igrejas e movimentos religiosos no espaço público se liga a mudanças ocorridas ao longo do processo de democratização brasileiro das últimas duas décadas. Tais mudanças guardam relação, por sua vez, com fatores que apontam para mudanças ideológicas no cenário internacional, para as conseqüências do modelo de desenvolvimento implementado pelo regime militar e para os ajustes econômicos e políticos realizados ao longo dos anos de 1990. Mas não se pode subestimar a memória de processos anteriores, em que pela fermentação teológica ou em decorrência de engajamentos concretos com movimentos sociais e políticos, setores das igrejas buscaram assumir um papel mais ativo nos debates e lutas sociais.


Tampouco se pode deixar de acentuar o impacto positivo que a luta pela redemocratização e o processo de transição à democracia dos anos 80 trouxe para a pluralização da agência social e política, bem como para a introdução de elementos politizadores em diversos segmentos sociais marcados pelo seu isolamento ou conservadorismo. O referido processo trouxe para a cena pública um conjunto de atores que não apenas introduziram outras demandas, valores e repertórios de ação, mas também emergiram a partir de iniciativas em que de diversas maneiras entravam grupos e movimentos religiosos. Tais atores surgiram seja devido à crise da representação política tradicional, que abriu possibilidades de participação por fora dos canais partidários, notadamente na base da sociedade, seja pelo reconhecimento dos limites da política de classes (a despeito do novo sindicalismo de fins dos anos de 1970), nem determinados pelo teologismo de um projeto histórico emancipatório (mulheres, negros, indígenas, ecologistas, etc.). E muitos deles surgiram ao abrigo de ou em solidariedade com movimentos religiosos, particularmente os referenciados na chamada “ala progressista” das igrejas.


De outro lado, a redefinição das relações entre religião e sociedade/política têm forte relação com experiências de engajamento social e político de instituições e grupos religiosos que já se desenvolviam desde os anos de 1950, as quais adquiriram, entre fins dos anos de 1970 e fins dos anos de 1980 uma grande visibilidade social: a igreja popular, as comunidades de base e os movimentos de bairro, a teologia da libertação, o movimento ecumênico de origem protestante, o evangelicalismo.


Nos anos 90, esses atores religiosos preocupados com o social descobriram as parcerias e as redes. Descobriram que nem só de recursos voluntários se faz a ação social, que as igrejas, na medida em que proponham ações consistentes e não façam discriminação de raça, gênero, religião, etc. entre seus beneficiários, na medida em que imprimam um interesse público a suas ações, podem legitimamente ter acesso a recursos públicos destinados a programas sociais. Descobriram que podem ser parceiras de outras organizações da sociedade civil, inclusive não-religiosas, e mesmo de governos, em iniciativas em que o sentido público das ações assegure a autonomia organizacional, de princípios e valores morais e políticos dos parceiros. Assim, a parceria pode acontecer, atingindo mais e melhor as necessidades da população pobre, sem descaracterizar a identidade de cada parceiro. Atuar em rede, juntamente com outras organizações evangélicas, cristãs não-evangélicas, brasileiras ou não, ou com outras organizações da sociedade civil, em função de temas sociais de grande importância, ou de questões mais específicas, tornou-se mais recentemente um recurso facilitador de maior impacto transformador e de maior racionalidade no uso de recursos escassos.


Como se coloca a questão da ação social hoje? De múltiplas maneiras. Não há uma só forma de atuar. Do ponto de vista da relação com a missão da igreja, há diferentes aspectos em jogo. Fazer para dentro ou para fora (priorizando os membros de igreja ou qualquer pessoa que precise)? Com quem fazer (referência eclesial ou como “fermento na massa”, sozinhos ou em redes e parcerias)? Com que objetivo ou horizonte de mudança (imediato, de médio e longo prazo, local, regional, nacional, assistencial, transformador)?


Do ponto de vista das modalidades de atuação, há também diferentes possibilidades:


1.        desenvolvimento de uma consciência e crítica profética diante da situação social, aprendendo a compreender os fenômenos sociais para além de impressões, pre-julgamentos, preconceitos, ou de leituras puramente espirituais ou religiosas dos mesmos;


2.       realização da filantropia, nos casos em que é preciso atender às necessidades emergenciais ou àqueles setores mais pobres entre os pobres, mais discriminados socialmente, ou incapacitados para o trabalho ou para cuidadem de si mesmos, que precisam de constante apoio e provisão;


3.       atuação profissional, pondo a serviço dos setores excluídos da sociedade o saber e a experiência que existem no meio evangélico e que muitas vezes só são exercidos em proveito próprio (melhorar de vida, ganhar mais dinheiro, consumir mais);


4.       envolvimento em ações coletivas, participando de iniciativas de auto-organização da comunidade, da vizinhança, de uma categoria social, de um grupo de pessoas que se sentem discriminadas ou excluídas de alguma maneira; tomando a iniciativa e oferecendo recursos humanos e institucionais da igreja para a organização ou mobilização desses grupos; dando apoio público a movimentos desse tipo, quando solicitada ou quando sentir-se solidária com as demandas ou questões defendidas;


5.       atuação política, em nível supra-partidário, ou, em se tratando de indivíduos, pequenos grupos ou movimentos de cristãos, partidariamente, no apoio a projetos que visem a transformar a sociedade no sentido da liberdade, da igualdade e da solidariedade;


6.       desenvolvendo uma espiritualidade do serviço e da libertação, que integre na experiência de fé dos membros das igrejas, inclusive daqueles que não atuam diretamente na ação social, a compreensão de Deus que nos ensina a falar, orar, agir com vistas à transformação de toda a humanidade e das pessoas como seres integrais (corpo e espírito), bem como de toda a criação, obra das mãos de Deus.


A prática social da Igreja pode ser um testemunho da sua missão integral. Há muitos e não pequenos desafios a enfrentar. E como em muitas outras situações na história da igreja, não é possível esperar pela maioria para tomar a iniciativa. O importante é tentar sensibilizá-la para ser fiel ao chamado integral de Deus à sua igreja. Se e onde isso não acontecer, sejamos movidos por nossa convicção de estar sendo fiéis a Deus e, mesmo compreendendo em amor as resistências, não cedamos, não nos dobremos a elas. O conservadorismo de maioria, ao longo da história, nem sempre foi testemunha de fidelidade, equilíbrio e compromisso com a paz e a justiça. Houve e há horas em que temos que nos erguer e assumir a responsabilidade, diante de Deus e dos outros ao nosso redor, de ser agentes de mudança na produção de sinais do Reino de Deus.


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[1] Conferência pronunciada na abertura do II Congresso da Associação Batista de Ação Social, em Jaboatão dos Guararapes, no dia 02/10/03.
[2] A teologia da missão integral da igreja emergiu a partir da Conferência sobre Evangelização Mundial realizada em Lausanne, Suíça, em 1974, dando origem ao movimento de Lausanne, que reúne cristãos evangélicos empenhados em promover um anúncio do evangelho que seja acompanhado pelas obras que testemunham do poder transformador do mesmo, nas pessoas, nas comunidades e nas estruturas sociais.
[3] “Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa do seu pai e vá para uma terra que eu lhe mostrarei. Os seus descendentes vão formar uma grande nação. Eu o abençoarei, o seu nome será famoso, e você será uma benção para os outros. Abençoarei os que o abençoarem e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem. E por meio de você eu abençoarei todos os povos do mundo.” Esta última frase, que se repete em Gen 18.18; 22.18; 26.4; e 28.14, tem uma tradução mais precisa do que esta na frase: “os povos dirão entre si: ‘Bendito sejas como foi Abraão’. Esta que temos hoje já decorre da interpretação que lhe foi dada pelo livro de Eclesiástico (44.21) e pela tradução grega do Antigo Testamento e adotada pelo Novo Testamento.
[4] “As promessas que deus fez por meio dos seus profetas são para vocês. E vocês fazem parte da aliança que Deus fez com os seus antepassados, quando disse para Abraão: ‘ Por meio dos seus descendentes, eu abençoarei todas as nações do mundo’. Assim, Deus escolheu o seu Servo e o mandou primeiro a vocês, para abençoá-los, e para que cada um de vocês abandone os seus pecados”.
[5] “Portanto, vocês devem saber que os verdadeiros descendentes de Abraão são os que têm fé. Antes que isso acontecesse, as Escrituras viram que Deus ia aceitar os não-judeus por meio da fé. Por isso, antes de chegar o tempo, elas anunciaram a boa notícia a Abraão, dizendo: ‘Por meio de você, Deus abençoará todos os povos’. Abraão creu e foi abençoado; portanto, todos os que crêem são abençoados como ele foi”.

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