Disciplina na Igreja

Autor: Samuel Davidson
Leituras: Mateus 18:15-17: Apoc 3:19

Desde Gênesis até Apocalipse vemos que o nosso Deus é Deus de ordem. Seja com o Seu povo Israel ou com a sua Igreja na terra, Ele tem revelado um padrão para o comportamento do Seu povo. Este padrão é para o nosso bem e para o bem da Sua obra na terra e se um de seus filhos desviar-se desta ordem, Deus o corrige.

É notável que na primeira referência em o Novo Testamento sobre a Igreja local (Mt 18:15-17), e também na última (Ap 3:19), o assunto é sobre a necessidade de disciplina na Igreja local. Mesmo quando os apóstolos estavam na terra havia necessidade de disciplina nas igrejas, e esta foi muito severa, como quando Ananias e Safira morreram em Jerusalém por causa da sua mentira (At 5:1-11). Deus não tolera pecado na igreja. Também nas cartas de Paulo há muito escrito sobre este assunto. Mesmo Tessalônica, que foi chamada de “modelo para todos os crentes da Macedônia e da Acaia” (I Ts 1:7) tinha problemas também (I Ts 5:14 e II Ts 3:6).

Destas considerações podemos concluir que este assunto, embora pesado, é muito importante e por isto vamos estudar o que as Escrituras nos ensinam, fazendo algumas perguntas e procurando as respostas bíblicas.

O que é disciplina?

A palavra “disciplina” vem da palavra grega que quer dizer “uma mente sã”. Assim “disciplinar” quer dizer “consertar os pensamentos” da pessoa que não está pensando certo de forma a corrigir a sua atitude e colocá-la no caminho certo. Deus quer que seus filhos pensem e ajam conforme a Sua ordem. Deve ser claro que o elemento principal na disciplina não é o castigo. Geralmente este processo traz tristeza e dor, mas depois, quando a lição é entendida, traz alegria e ‘fruto pacífico” (Hb 12:11).

Há pelo menos três tipos de disciplina mencionadas na Bíblia:

Disciplina Divina, onde Deus mesmo corrige os Seus filhos pessoalmente (At 5:1-11).
Disciplina Própria, onde nós mesmos corrigimos as nossas atitudes erradas (I Co 11:31)
Disciplina no Lar, onde os pais corrigem seus filhos (Ef 6:4).

Por que a disciplina na igreja é necessária?

Há três razões principais:

a)Infelizmente nem sempre usamos a disciplina própria nas nossas vidas. Às vezes, por falta de conhecimento da Palavra de Deus, ou por falta de cuidado em obedecer o que temos aprendido, caímos em pecado. Assim a disciplina da Igreja chama a atenção do pecador ao seu caminho errado e o ajuda a deixar o pecado e ser restaurado à ordem de Deus.

b)Se o pecador não for corrigido com certeza outros também vão cair no mesmo erro. “não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda?” ( I Co 5:6; Gl 5:9). A disciplina é necessária para ensinar a outros sobre a necessidade de santidade na igreja (At 5:11).

c)Deus não pode abençoar Seu povo coletivamente quando há pecado no meio. Acã causou prejuízo para todo o povo de Israel quando pecou ( Veja Js7). A disciplina purifica a igreja na presença de Deus.

Quem aplica a disciplina na Igreja?

Em primeiro lugar o Senhor Jesus Cristo disciplina a igreja. É pela Sua Palavra que a igreja local aplica a disciplina (I Co 5:4). É um ato solene feito em o Nome do Senhor Jesus pela liderança agindo em favor da igreja (Gl 6:1). Em casos graves onde a pessoa merece ser separada da comunhão, esta triste notícia é dada à igreja reunida, mesmo na ausência do infrator. Discernimento é necessário aqui para evitar escândalo, porque é um assunto somente para os ouvidos da igreja. Pais não devem falar abertamente em casa perante os seus filhos sobre estes assuntos.

Quando deve ser aplicada a disciplina?

É absolutamente necessário que haja CERTEZA dos fatos do caso. Nada pode ser investigado até que haja pelo menos duas testemunhas (Mt 18:16; I Tm 5:19). Geralmente as aparências são enganosas (Jo 7:24) e não podemos agir em disciplina sem que haja fatos concretos sobre os pecados cometidos. Satanás é o “acusador dos irmãos” e às vezes a liderança da igreja sofre seus ataques neste sentido.

Quando há certeza do caso que merece disciplina não deve haver demora em aplicá-la. Isto tem de ser feito sem parcialidade, seja presbítero, filho de presbítero ou qualquer outra pessoa (I Tm 5:21).

Quais são os casos que precisam disciplina?

Assim como existem muitas doenças físicas que precisam de tratamento diferenciado, assim também acontece neste assunto. Cada caso deve ser considerado e disciplinado como a Bíblia ensina.

a)Casos merecendo a separação da comunhão.

Esta é a disciplina mais severa e somente deve ser aplicada em casos gravíssimos. São três estes casos:

1)Recusar reconhecer o erro de ofensa a outro irmão (Mt 18:15-17). Notamos os três passos. O irmão ofendido visita quem o ofendeu e procura resolver o problema entre eles. Se não houver reconhecimento do erro, ele volta trazendo duas testemunhas. Se ainda não for reconhecido o erro, o caso é levado publicamente perante a igreja e a pessoa é colocada fora da comunhão até que reconheça o erro.

2)Imoralidade, Avareza, Idolatria, Maledicência, Bebedeira, Roubo (I Co 5:11). Estes pecados são disciplinados quando há provas de ATOS COMETIDOS. Alguns destes casos, como avareza, idolatria e maledicência são mais difíceis para provar, mas devem ser tratados.

3)Blasfêmia (I Tm 1:20). “Entregar a Satanás” é colocar fora da comunhão da igreja (I Co 5:5). “Blasfêmia” é ensinar doutrina errada sobre a pessoa e Obra do Senhor Jesus Cristo. Isto não se refere a pessoas que têm diferentes idéias sobre assuntos secundários.

b)Casos não merecendo a separação da comunhão.

Felizmente a maioria dos problemas não precisam de separação da comunhão

1)Tropeço (Gl 6:1). Neste caso o pecado não foi planejado e não era costume da pessoa agir assim. Muitos novos convertidos tropeçam por falta de conhecimento da Palavra e precisam de conselhos da liderança da igreja.

2)Dúvidas sobre doutrina (Jd 16-23). Certas pessoas ouvindo vários ensinos em outros lugares revelam dúvidas sobre a doutrina. Estas pessoas não são falsos ensinadores, mas precisam de compaixão e esclarecimento.

3)Desordenado ( II Ts 3:6-14). Esta pessoa intromete na vida de outros; ou não quer trabalhar para ganhar a sua vida material; passa muito tempo nas casas dos outros falando o que não deve; usa a Palavra publicamente para atacar outros. Toda a igreja deve mostrar que não está gostando do seu comportamento e não deve dar oportunidades para ele.

4)Repreensão Pública ( I Tm 5:20). Esta disciplina é mais forte e séria no caso de alguém que continua nos erros já mencionados depois de ser avisado pela igreja. A referência pode ter aplicação especial aos presbíteros, mas serve para todos.

5)Homem faccioso (Tt 3:10-11). Esta pessoa quer sempre dominar a igreja. Exige coisas sem base na Palavra de Deus. Facilmente faz “greve” quando não consegue o que quer e procura levar outros para o seu lado. Ele deve receber até dois avisos da liderança da igreja e, se continuar, toda a igreja deve unir e mostrar que não tolera seu comportamento. Com isto, ou ele se retira, ou muda seu comportamento.

6)Quem causa divisão (At 20:29,30; 16:17-20). Às vezes pessoas carnais usam a comunhão da igreja para carregar discípulos atrás de si, visando formar outro trabalho onde possam ser preeminentes. São lobos disfarçados e muito perigosos, por isto são servos de Satanás. A igreja deve afastar-se deles que, não recebendo atenção, pararão de causar divisão e vão embora.

A Restauração do Pecados (II Co 2:5-11; II Co 7:9-12)

Um dos motivos principais da disciplina é sempre a restauração. Por isto deve sempre ser aplicada num espírito de amor e de humildade. No caso de um irmão afastado da comunhão, a igreja o observa querendo ver sinais de arrependimento e mudança de atitude. Quando ele demonstrar esta mudança a igreja deve recebê-lo de volta à comunhão.

Notamos que este tempo é decidido pela igreja e não por quem foi disciplinado. Em outros casos menores a disciplina aplicada deve logo produzir melhora no comportamento e mostrar que houve restauração completa.

Comunhão entre as Igrejas Locais

Embora uma igreja local não tenha parte na disciplina de alguém de outra igreja, este assunto pode afetar outras igrejas. Às vezes a pessoa não aceita a disciplina e procura mudar para outra igreja. Cartas de recomendação são necessárias e alguém em disciplina não deve ser recebido logo por outra igreja. Pode ser necessário comunicação entre as lideranças. No caso de igrejas novas e que ainda não tenham presbíteros, seria melhor buscar ajuda de irmãos reconhecidamente maduros e respeitados para cooperar. É melhor do que administrar uma disciplina erradamente. Vemos este exemplo nas cartas paulinas.

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